Hoje, conversando com duas colegas jornalistas na redação da TV Panorama, uma delas fez uma revelação que me comoveu. Disse que, no início dos anos 90, a mãe tinha por hábito ouvir o meu programa de rádio. Numa ocasião, um parente precisou de medicamentos que eram caros. Através de uma carta enviada ao programa, fizemos o pedido e os remédios foram doados em grande quantidade. Assunto resolvido. Aquela história me deixou preocupado. A dúvida surgiu. Será que se alguém precisar de um serviço de utilidade pública e recorrer ao rádio de Juiz de Fora vai encontrar resposta? Os bons tempos do rádio responsável em nossa cidade já se foram.
Lí uma reportagem sobre o fim de uma rádio FM de Sorocaba transferida a uma igreja pentecostal e fiquei preocupado. O autor da matéria chamou de mais uma propriedade de “igreja eletrônica” 24 horas por dia de cultos, todos os dias sem locutores, vinhetas, chamadas, ou qualquer elemento que lembre uma rádio. Sobre o que ouve no ar, o articulista diz que ”até a qualidade do áudio parece não importar para a Rede - chiados de fitas K-7 e pregações com a qualidade de som de uma ligação telefônica são comuns. São meros megafones da igreja, que formam uma rede de frequências desperdiçadas.”
Por curiosidade fui ouvir a tal rede que, aqui em Juiz de Fora “detém” um canal AM que pertenceu a uma das mais tradicionais emissoras de rádio da cidade. Infelizmente constatei, meus caros leitores, que tudo está endemonizado, tudo de ruím acontece com as pessoas que dão “testemunhos de milagres”. São as mais infelizes da face da terra, no entendimento do pastor, pois a vida delas não tem o mínimo de valor de tão ruíns que são. A impressão que tive foi das piores. Não suportei cinco minutos, tempo suficiente para me sentir mal, horrorizado, deprimido, acreditando que a vida é mesmo muito ruím, que não valho nada. Este tipo de comunicação deveria ser fiscalizada com os rigores da lei, reprimida, coibida, censurada e proibida. Aqueles senhores usam do bom nome de Jesus para praticar crime de preconceito.
O autor Celso Delmanto, a respeito do art. 140, § 3º, do CP, comenta: comete crime o agente que utiliza palavras depreciativas referentes a raça, cor, religião ou origem, com o intuito de ofender a honra subjetiva da vítima.
Uma boa noticia.
Tramita na Câmara dos Deputados projeto de lei que pretende conceder maior peso à proposta técnica, do que à proposta financeira, nas licitações para concessões e autorizações de canais de televisão e freqüências de rádio. O autor da matéria é o deputado federal Valadares Filho (PSB-SE) que pretende com a iniciativa, aumentar a competitividade destes processos licitatórios, que geralmente são decididos pelo poder econômico dos grandes grupos de mídia, inclusive as igrejas.
Outro deputado Mauro Rubem (PT) considera que qualquer medida que evite a concentração dos meios de comunicação é interessante. Hoje, a comunicação é vista como um grande negócio. Sua concentração nas mãos de poucos é perniciosa para a sociedade, pois deixa de existir um contraponto para as notícias tendenciosas, avaliou.
O parlamentar também ressaltou a necessidade de que as licitações também garantissem os interesses da sociedade, analisando critérios sociais como a vinculação de campanhas sociais gratuitamente. Não faz sentido que o Governo gaste milhões em campanhas sociais, que se reverterão a toda sociedade, inclusive para os donos dos próprios veículos de comunicação, questionou.
Fica nossa contribuição aos deputados: proponham também que as concessões só serão renovadas se os grupos que detém os canais, que são outorgas públicas, comprovarem que tem uma programação voltada para os reais interesses da comunidade. Que tal adotar o mesmo sistema dos cartórios de notas. Radialistas, jornalistas e publicitários teriam preferência nas concessões.
Há uma luz no fim do túnel para acabar de vez com a avacalhação que se transformou o rádio em diversas cidades do Brasil e Juiz de Fora é um dos piores exemplos. Aqui se aprende – e bem, como não se deve fazer rádio.
Sérgio Rodrigues